sufocado de amor

despir-te

inebriar-me

admirar-te

e dizer: desejo-te.

Ah pudesse ainda

sublimado

extasiado

fitar-te cansada

e dizer-te: amada.

Tristeza

Haverá festa

haverá dança

haverá músico de fora,

e eu vejo a Maria Tiana

sentada num lado do prédio.

Está triste.

Tem dança

tem festa

tem bebida

tem músico de fora

mas ela é triste.

Coitadinha…

Tão bonitinha

e tão tristezinha.

A festa começou há pouco

agorinha mesmo.

Festa boa.

Não sei por que não lhe mexe os cabelos.

Nem se levanta.

Não se move

mas está tão bonitinha assim

triste

encostada na esquina.

Adeus, Maria Tiana

vou dormir.

Parece que também está cansada:

levanta-se

ergue os braços

caminha…

Mas que festa é essa?

Ah! dos namorados…

E o seu, Maria Tiana, abriu um oco no mundo e se socou.

07/06/73

Namoro

Carta de namorada

casa de namorada

bilhete de namorada

na morada…

Fiquei na porta da morada.

Eu em um lado

ela no outro

e a mãe atrás.

Cuspi.

Olhei

fiz cara feia

afastei-a

e a mãe de lado…

(a senhora não vai sair daí não?

namorada… )

Um abraço

e  a mãe do lado…

(Diabos!…)

Tantas namoradas…

Namoradas que me fazem chorar

namoradas que me fazem lembrar..

Namoradas…

muitas numa só…

— Depois eu dou o sim…

Ah namoradas…

— Meu filho, você tenha cuidado…

— Mas mãe, eu…

— Desse jeito termina casado.

Ah namoradas!…

Bilhete de namorada

carta de namorada

não de namorada

na morada

na sua própria morada

eu comecei a namorar.

17/06/73

Renovação

Você volta?

— Volto.

Um dia

um breve dia

quando sentires saudades de mim;

quando a lembrança

já não me falar dos teus cabelos cálidos

do teu beijo

dos teus seios

do teu sexo.

Quando tudo me estiver fugindo

uma noite

linda

sorrateiramente

sem compromisso

abrirei a porta do teu quarto

fitar-te-ei na cama

e amarei

para refazer uma lembrança.

13/11/73

Profanação

Mãe, por que tanto sinal?

— Não é sinal não, menino: é repique!

É Deus! É o pai do mundo!

É nossa senhora que dá a luz

é Deus que nasce

vive

vira criança

deita na cama de palha

sem fala

com frio

esmagado pelo hálito dos burrinhos

pelo mugido das vacas

pelas candeias de azeite,

chorando

gemendo

pedindo leite

e São José nervoso

preocupado em fazer leite!…

É a vaquinha que muge

que grita de alegria

mas não tem leite.

É a estrela

são os três reis.

um traz mica

ouro

outro sem carga

sem camelos

sem dromedários de duas nádegas

não traz nada.

— Pra que tanto sinal mãe?

— Não é sinal não, menino danado:

é Natal!

14/08/73

Viciado

Amanhã vou lá.

Amanhã volto.

Mesmo sem ter dinheiro pra voltar

eu volto.

Entro devagarinho no ônibus

no caminhão

me ajeito

e quando vir o cobrador

digo que não tenho dinheiro.

Se ele quiser dinheiro

digo que dou quando chegar a minha cidade.

Se quiser mulher

digo que dou quando chegar a minha cidade.

Se quiser cachaça

digo que dou quando chegar a minha cidade.

Se quiser luar

(digo que dou quando chegar a minha cidade)

oferecerei o luar da minha cidade

e com esse luar as serenatas

o calor

o frio

o calor quente da cachaça.

Se ele quiser alegria…

— Vem cá, amigo

prova aqui…

prove outra vez…

mais um pouquinho…

Pode tomar

aqui tem uma garrafa.

Amanhã vou lá.

Amanhã volto.

Mesmo sem ter dinheiro pra voltar

eu volto.

Não fico é mais aqui

onde não se tem cachaça

mulher nem luar…

22/11/73

Armas da Perdição

Minha cidade é um bar

dois bares, bares

um mercado

dois armazéns, uma estrada…

Minha terra é a terra da perdição

é terra de pecado e desgraça.

Se fores a minha terra

rezes antes de entrar

porque a morte te é selada.

A morte vem da cachaça

dos bares de cerveja quente e cara

dos albergues, do Cruzado

— zona de prostituição da cidade.

Verás

faceira, triste

passeando quando a tarde é finda

a Toinha do Capão de Cima.

E quererás (existe este termo? )

matar

suicidar-te

nos trajetos da estátua de carne.

Mas forasteiro, aquilo tudo é minha cidade

e minha cidade guarda suas coisas santas com armas mortíferas.

Tem a cachaça barata que logo mata

o sargento valente que logo mata

os armazéns

os políticos fingidos…

Todo isso é arma.

Tudo isso é a perdição da minha cidade.

13/11/73

Transplante

Você me entorpece.

Você de vermelho

calma, simples

dengosa

você me fascina.

Você me pega pela ponta do pé

e eleva-me ao mais alto dos céus.

Seu sorriso

seu mistério

seus cabelos bordados de ouro

Lembram-me a Tiana.

Você é linda como a Tiana

é  morta como a Tiana.

do outro mundo como a Tiana.

Você me mata como a Tiana.

Ah se as prostitutas da minha cidade

tivessem as pernas

a cor

o corpo que você tem…

Acordaria cedo

jantaria cedo

e iria para a rua do Cruzado.

Uma a uma amaria  a todas

apertaria todas

dormiria com todas.

11/1973

São João

São João vem aí…

São João bom

São João zoadento

São João quente que esquenta a gente.

São João das quadrilhas

das canjicas…

—  Traz mais milho!

São Joãozinho

tão bonitinho…

seu cordeirinho

tão branquinho…

E seu cabelo, Joãozinho

é tão lourinho…

Mais louro que o cabelo da Socorro da Ornelina.

São João das fogueiras

das apartações, dos padrinhos…

“São João dormiu

São João acordou

São João mandou dizer que você é meu compadre três vezes…”

Era o Joaquim e o Danton.

Brigavam o tempo todo

mas São João é bom

faz intrigados se acompadrarem.

Meu São João infantil…

Quando me lembro nem sei se sou homem ou menino.

São João faz isso.

As fogueirinhas

o cercado da Santa Clara

os galhos de jurema…

Pra trazer era o maior sacrifício…

— Zé, me ajuda aqui…

Terminava trazendo sozinho.

Zé era preguiçoso como o diabo

nem São João tirava a preguiça de Zé.

São João das quadrilhas…

Casa coruja com caboré

traz o dinheiro que o padre quer!…

Naquele tempo padre receber dinheiro era pecado…

07/06/73

EXPEDITO

Expedito macho!

foi bem feito!

Provou a macheza

destreza

violência

coragem

e (desculpe, Expedito)

a sua fragilidade…

Você viajou

passou dois dias

gostava dela

vivia com ela

comia com ela

dormia com ela

fez filho nela…

E quando voltou

Encontrou-a com outro.

E você

pegou a faca

correu

riscou o chão

lambeu

ouviram-se gritos

não se importou

correu dentro

e furou vinte vezes!

No fim, Expedito

você quem perdeu.

Você é moço

é novo

todos tiveram pena:

depois das vinte facadas

ajoelhou-se ao corpo

e chorou a morte da mulher amada.

Veio a polícia

corre aqui, corre acolá

o detetive particular

e nesse dia

a zona de prostituição da cidade

enlutada

ainda cedo

não atendeu a nenhum freguês…

13/11/73

COCEIRA

Coça, coça

quanto mais coça  gosta…

Coceirinha…

vai começando devagarinho…

em pouco…

— Olha a briga!…

Lá vêm os cabras do Capão de Cima

com suas facas afiadas!

— Sai do meio quem tem medo!…

Mãinha, mãinha

você está longe.

Minha mãezinha

que saudade de você…

E essa coceirinha me aporrinha de tal jeito…

— É besta, cabra pedrês!

Puxa sua peixeira!

Puxa que eu quero ver!

E veio o resto da turma do Capão de Cima…

Coceirinha gostosa…

nem me incomodo…

coço, coço, coço…

coceirinha gostosa…

Que me importa que tenha briga?

Briga se vê em todo lugar.

Só não estou acostumado, mãinha

a ficar tão longe assim…

Coceirinha gostosa, gostosa

tão gostosa que chego a esquecer…

25/07/73

Lembranças Noturnas

Carros

motores

calças sanforizadas ( já procurei demais essa palavra no dicionário e não encontrei )

caneta a riscar

— Ô preguiça danada…

É assim:

um dia de um jeito, outro de outro…

Há dias que não escrevo uma poesia

noutros… — Danou-se!

quero escrever um livro…

Carros

ronco de motores

mala rasgada

mala costurada

quarto mal iluminado

cigarro de lado (esse não pode faltar).

As vezes penso em voltar a minha cidade.

Quero ir

aparecem imprevistos

e não vou porque quero ser responsável…

Cigarros aos lábios…

fumaça gostosa

(só sendo mesmo!)

cigarro barato…

Um dia dei minhas poesias para alguém ler.

Sem pensar  em nada, claro:

onde já se viu besta pensar?

Entreguei-as.

Quero uma crítica

e escrita.

Não veio a crítica

nem tampouco escrita.

Talvez nem lesse minha poesia.

Mas hoje estou doido pra escrever.

Esqueci regras gramaticais.

Você sabe o que é parêntese?

pois saiba que o pus até nas cartas da namorada

e foram muitos.

Quero sorrir de tudo

ser melhor que tudo

escrevo entre parênteses (duas meias luas ao contrário: sinal gráfico) o que não quero dizer de frente.

Cheguei da rua

sentei

esperei o leite

esperei a mesa

não me veio nem o leite nem a mesa.

Limitou-se a um cafezinho quente.

Tomei-o.

Do mesmo jeito que tomaria o leite tomei o café.

Café nosso, café do Brasil.

Levantei-me

(só tinha eu à mesa)

rumei ao quarto

(sujo como nunca)

procurei o cigarro.

Bebida não

porque essa só em ocasiões especiais.

Acendi o cigarro

caneta à mão…

uma, duas, três…

(sei lá! ainda nem contei)

só sei dizer que saiu poesia como o diabo.

Poesia besta como eu.

Só não é mera análise

porque não sei analisar.

Só uma vez analisei…

— Boa noite…

e seu Zezinho respondeu:

— Boa…

Vi logo que ele estava com preguiça

e foi a primeira vez que analisei.

Não analiso as minhas poesias.

Escrevo.

Penso que ligo à rima

ao ritmo?

Rima vi muito nos folhetins de feira

e achava uma beleza.

Ritmo vi nas cantigas de cego:

sanfona de lado

pandeiro…

Agora escrevo poesia.

Está bem feita?

Nem eu próprio sei se escrevo poesia.

Posso ser besta.

Acho que sou besta.

No fundo o mundo está cheio de bestas

de linguarudos

de controvérsias.

Imagine que zombaram de mim … “pacificador fingido…”

só porque quis evitar intrigas.

Os futuros intrigados viraram-se contra mim.

Não corri.

Pensei e respondi-lhes.

Como são insípidos

deixaram-se levar por mim.

Carros

motores

calça sanforizada (pus o dicionário há pouco sobre a máquina…)

máquinas…

— Benção, Engrácia.

— Deus te abençoe, meu filho.

Leve essa melancia pra você.

E eu ia chupar a melancia.

Agora passam carros

eu fumo

(mais uma vez: cigarro barato)

penso na namorada

dou uma tragada.

Tiro uma fumaçada como dizem as velhas lá de casa

deito-me (deitar não porque já estou deitado, mas ponho a cabeça sobre o travesseiro…).

Os carros passam…

Sei lá de minha cidade!

Está perdida

sinto saudades

quero ir

surgem imprevistos e não vou

— Como ficou Remanso?

— Tá pra se acabar…

Mexo-me na cama

lembro…

minha mãe…

fumo o cigarro (já está pra terminar)

O sono me quer pegar

sinto-me cansado…

(carros, ronco de motores…)

— Benção, Papai do céu?…

Apago a luz e vou dormir…

17/06/73

MORTE DA PROSTITUTA

Mulher, você está mal…

— Eu, doutor?

Eu? logo agora?

Não doutor, não me deixe morrer…

Mas morreu

e vestiram-na de azul

de luz

de esplendor.

Apertaram-na entre tábuas cobertas de rosas

cor de rosa…

A Nininha morreu.

Sua mortalha

seu chambre de dormir

é azul

e o caixão cor de rosa

as cores da simplicidade

da virgindade.

Chorem virgens

chorem anjos

chorem camas

chorem irmãs!…

A Nininha prostituta morreu…

Vontade

Pernas, caminho

pedras, caminhada

escuro, cipreste

várzeas

lama, água

perto, maior vontade…

a porta trancada

um toque

dois toques

um murro, um soco

a porta aberta

uma silhueta enorme

o abraço, o beijo

o caminho

a sala, a vitrola

a pilastra

as cadeiras

o sofá

a porta

a chave, o quarto

a porta trancada por dentro

a cama

a ânsia

o censo

o aumento

o barulho

o rolar de corpos

dois suores num só

suspiros

ais, gemidos

gemidos da cama

do homem

do colchão…

a porta trancada

o telhado

o escuro

o quarto encerrado

— ai… ai… ai….

ais

os gostos, os gozos

a fadiga

a porta aberta

o ar

o ar puro

o término

o talco, o cheiro

a água

os botões, o cinturão

botões de lado,

botões atrás… — Vestidos!

Era o último filho…

Os parentes e amigos de Nininha Silva

morta por ocasião de um parto mal sucedido

convidam o povo em geral

para o seu sepultamento…

05/03/73

Caldo de Cachaça

Doutor, o que é que eu tomo?

— Caldo de cachaça misturado com cana.

— É bom, doutor?

— Você é homem? Pois foi feito pra homem:

tome, corra, grite, exalte-se, xingue, brigue!…

Vamos! vamos safado!

Tome o caldo de cachaça misturado com cana!

É bom pra quem está como você!…

Tome torrado, masque

fume por cima um cigarro

caia n’água, nade (se não morrer afogado…)

coma feijão, macarrão

coma mamão, coma João!

Seja você mesmo, embriague-se!

Safado, cachorro, tarado

vamos tomar o caldo de cachaça

a bebida real, da realidade

da realeza de ontem que comia feijão e dizia que não comia feijão.

Mas o que é que eu tomo, doutor?

— Já disse: caldo de cachaça misturado com cana

caldo de cachaça misturado com choro…

Xingue, brigue

ofenda a namorada

toque fogo na casa

saia nu de casa

nu! nu!

entendeu? — Nu!

Faça todo mundo correr

as mulheres se horrorizarem

cobrir com a luva a cara.

Faça os homens se revoltarem!

Agite-se! Queira forçar, subestimar!…

Corra! ali vem eles!

Cuidado! vão lhe pegar

botar na cadeia

vão levar ao lugar da sujeira

onde só tem rato preto

sem sanitário!…

Onde só tem o cabo

a vassoura

sem garfo nem faca

sem água encanada

e você será o burro de carga.

Corra! Cuidado pra não cair!

Cuidado com o nariz!

Cuidado!…

Coitadinho…

já o pegaram…

e batem tanto…

— Mas doutor, o que é que eu tomo?

— Caldo de cachaça misturado com cana.

— E depois?

— Depois vá pra cadeia

coma peia, coma peta…

fique de joelhos… (cuidado com o peito!)

deite-se… deite-se! (os soldados andam sem dinheiro)

aguente-se, rebele-se

vá dar parte no comando do quartel

depois saía com as ancas doendo

tremendo

aos pedaços

mas saía

antes que seja tarde.

Depois, olhe lá, não esqueça,

lembre-se que eu nunca fui doutor…

— Mas doutor, o que é que eu tomo?

— Caldo de cachaça misturado com cana.

— Tudo isso?

— Então tome só a cana…

17/03/73

SEMANA SANTA

Ah que saudade da minha semana santa de criança!…

A Mintora pagando promessa

fazendo sacrifício não tomando café.

As ruas enfeitadas

minha mãe fazendo empadas…

— Não compre carne..

Ai que saudade…

Os soldados sem farda

os presos em suas casas

o comércio fechado

eu jogando farinha para as piabas

o delegado tomando cachaça…

— Mentira: nesses dias só tomo vinho.

Mas ai que saudade…

O Raulzinho ajudando a missa

um velho pedia esmola e eu lhe dava uma talhada de abóbora.

O Cenço passando a noite sem dormir…

Ai que saudades…

A radiola de seu Pedro dizendo bem alto a paixão de Deus

(crucifica-o! crucifica-o!)

e eu me tremia dos pés a cabeça.

Ai que saudades…

A fazenda, o catecismo…

— Hoje é dia de eucaristia…

— Amanhã não tem missa.

Ai que saudades…

Bolinhos, melancias…

— Eu vou, eu vou!

— Menino não pode ir.

— E o Raulzinho?

— Besta, você vai ficar com medo

os penitentes vêm todos de preto…

Ai que saudades…

Matraca, rádio, a Ná Rosa…

— Eu vou! eu vou!

— Não vai não. Amanhã tem procissão.

E só não vai tomar uma surra

porque está na Semana Santa.

Ai que saudades da minha Semana Santa de criança…

10/08/73


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