E nós, para onde vamos?

Já iniciando o mês de setembro, a falta de chuvas, conhecida como “a seca”, continuará a caminhada avassaladora sobre o nordeste brasileiro. É tão certa como dois e dois são quatro. Todo ano, desde os tempos que a memória alcança, vem matar aos poucos a família nordestina. Meu primeiro livro, A Santa do Pau Oco, editado em 2003, tem como fio condutor a famigerada seca. Começa assim…
“A seca continuava comendo bicho e gente. Quase todos os barreiros e cacimbas já tinham secado. Os catingueiros fugiam para a beira do rio, acampando na sede do município. Comiam o que encontravam pela frente. O povo tinha medo. O comércio de cereais e alimentos fechava as portas; o risco de saque era grande. O prefeito pouco fazia, dizia não saber fazer chover…”
O que mudou objetivamente em relação à seca de 1890, 1940, 1980, 2013, 2014 e agora em 2015? Nada mudou. A situação permanece inalterada por conta da utilização da seca como instrumento de controle político. Nunca, em todos os tempos, teve tantos carros pipas cortando as estradas nordestinas “distribuindo” água. Antigamente, os caminhões eram velhos, caindo aos pedaços; hoje, são de última geração, novos e caros. Ou seja, o que se paga para distribuir água pra matar a sede agora compensa investimentos de grande monta. E pergunto: Mudou a compreensão das causas e as formas adequadas para combater o mal? Qual a diferença entre o tempo em que Dom Pedro II jurou vender as jóias da coroa, mas resolveria o problema da seca, e os tempos de hoje?
Não vejo diferença. O mal nunca foi resolvido e a falácia é a mesma. Só reproduzindo o que ouvi no meu tempo de Extensionista Rural na EMATERBA e o que li nos livros dos governos e dos especialistas, a forma de combater a seca seria possibilitar ao flagelado melhores condições para enfrentá-la. Ou seja, criar estrutura de convivência. Lembro-me que vários colegas de trabalho foram a Israel estudar as avançadas técnicas que possibilitavam produzir em pleno deserto, com precipitações pluviométricas (chuvas) abaixo do nordeste brasileiro. Foram, conheceram, voltaram, repassaram os conhecimentos, foram realizados seminários… Cumpriram a obrigação, mas, de concreto mesmo, pouco chegou ao nordestino flagelado. Continua dependendo dos carros pipas, das benesses de governos através dos cabos eleitorais.
Agora pergunto: E eles, para onde vão?
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As fotos foram obtidas em Remanso, BA.

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